Crise do BRB e rombo nas contas públicas desafiam novo mandato de Celina Leão

Reeleita, Celina Leão enfrentará a crise do BRB, que busca R$ 6,6 bilhões, e o desequilíbrio fiscal do DF no próximo mandato.

Crise do BRB e rombo nas contas públicas desafiam novo mandato de Celina Leão

Reeleita para comandar o Distrito Federal por mais quatro anos, a governadora Celina Leão (PP) iniciará o novo mandato diante de dois desafios econômicos centrais: administrar a crise envolvendo o Banco de Brasília (BRB) e reequilibrar as contas públicas do DF.

Os problemas estão diretamente relacionados. O próprio governo do Distrito Federal reconhece que o BRB precisa de um empréstimo bilionário para recompor seu patrimônio. Como acionista majoritário, o GDF teria de quitar essa dívida no médio prazo.

Esta é a segunda reportagem de uma série sobre os desafios de Celina Leão para o próximo mandato. Até sábado (7), o g1 abordará os principais temas que o futuro governo deverá enfrentar. Na terça-feira (3), a reportagem mostrou os desafios da governadora na saúde pública.

Os dois temas ganharam destaque nas campanhas eleitorais de 2026 e devem estar entre as principais questões enfrentadas pela governadora no início da próxima gestão.

A crise do BRB foi provocada por negociações e operações malsucedidas com o Banco Master. Em março de 2025, o banco público anunciou a intenção de comprar parte da instituição privada.

A operação previa a aquisição de 49% das ações ordinárias e de 100% das ações preferenciais do Master, após autorização aprovada pela Câmara Legislativa do Distrito Federal.

No fim de outubro, a Polícia Federal indiciou 15 suspeitos de participação em condutas ilegais relacionadas ao caso, entre eles Daniel Vorcaro, ex-dono do Banco Master; Paulo Henrique Costa, ex-presidente do BRB; e ex-diretores do banco público de Brasília.

O governo do Distrito Federal é o acionista controlador do BRB. Por isso, precisa garantir que a instituição cumpra as regras do sistema financeiro e mantenha níveis adequados de capital.

Celina Leão sempre procurou se distanciar das operações que envolveram o BRB e o Banco Master. A governadora afirmou que não participou das negociações e que era contrária à operação.

Ao assumir o governo do DF, Celina passou a defender medidas para recuperar o banco e afirmou que “assumiu o problema do BRB”.

Atualmente, o principal problema do BRB é patrimonial. O banco precisa recompor o capital perdido nas operações envolvendo o Banco Master e voltar a cumprir os limites prudenciais exigidos pelo Banco Central.

Em entrevista à TV Globo após a vitória nas urnas, a governadora comentou a divulgação do balanço do BRB. O documento não é publicado desde novembro de 2025.

Celina negou que a divulgação do balanço estivesse atrelada à reeleição. “Esteve sempre atrelado ao empréstimo que nós estamos construindo”, afirmou.

O banco estima que pelo menos R$ 8,8 bilhões em créditos adquiridos sejam inexistentes, tenham sido fraudados ou sejam de difícil recuperação. Para reforçar o capital da instituição, o GDF busca um empréstimo de R$ 6,6 bilhões.

O governo recorreu ao Supremo Tribunal Federal para viabilizar um empréstimo de até R$ 6,6 bilhões com o Fundo Garantidor de Créditos (FGC), destinado à recomposição do patrimônio do BRB. Até agora, porém, os recursos não foram liberados.

O governo federal informou que não pode oferecer garantia para a operação, mas o Distrito Federal continua insistindo no pedido. Celina também disse que tenta negociar com bancos árabes.

O plano de governo de Celina afirma que a gestão deverá buscar a solidez financeira do BRB, ampliar a transparência e os controles internos e preservar o patrimônio público.

O documento apresenta nove ações estruturantes para o banco: recuperar e fortalecer a instituição, com melhorias na governança, nos controles, na gestão de riscos e na transparência; modernizar os serviços digitais sem abandonar o atendimento presencial e humanizado; ampliar o microcrédito para micro e pequenos empreendedores; e capacitar empreendedores com orientação e assistência associadas à concessão de crédito.

Também estão previstas medidas para facilitar o acesso de pequenas e médias empresas a garantias e crédito; reforçar a atuação do BRB no financiamento de infraestrutura, inovação e projetos que gerem emprego e renda; ampliar o financiamento a startups e empresas de tecnologia, inovação e economia criativa; fortalecer o crédito imobiliário, consignado e outros produtos para servidores do DF; e promover educação financeira para famílias e empreendedores, além de facilitar a negociação de dívidas.

Além da crise do BRB, as contas públicas do Distrito Federal são outro desafio para o próximo mandato. Desde que assumiu o governo, em março, Celina anunciou cortes de gastos, revisão de contratos e medidas de contenção de despesas. Ela também afirmou ter encontrado um “rombo bilionário” nas finanças do DF.

Ao longo dos meses, o governo apresentou diferentes números para dimensionar o desequilíbrio e, ao mesmo tempo, passou a projetar uma melhora no resultado das contas.

O plano de governo de Celina não estabelece metas fiscais nem apresenta números específicos para receitas, despesas ou investimentos. A proposta é consolidar um “modelo de gestão pública voltado para resultados”, com medidas de responsabilidade fiscal, modernização da administração tributária e adequação do Distrito Federal ao novo sistema tributário nacional.

Entre as ações previstas estão o fortalecimento do controle interno, da transparência e dos mecanismos de integridade e prevenção à corrupção. O plano também prevê medidas para melhorar a qualidade do gasto público e a gestão estratégica dos investimentos.

Outro compromisso é alinhar o planejamento de longo prazo do governo aos principais instrumentos orçamentários: o Plano Plurianual (PPA), a Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO) e a Lei Orçamentária Anual (LOA).

Apesar de listar essas diretrizes, o documento não detalha como as medidas serão implementadas nem estabelece metas, prazos ou indicadores específicos para a área fiscal.

Veja a cronologia das principais medidas e declarações do GDF sobre a situação fiscal.

Em 30 de março, data da posse e do início da revisão das contas, Celina Leão assumiu o governo após a renúncia de Ibaneis Rocha. Uma das primeiras medidas anunciadas foi o cancelamento da festa de aniversário de 66 anos de Brasília, com o redirecionamento de R$ 25 milhões para a saúde.

Naquele momento, a nova gestão começou a afirmar que havia despesas acima da capacidade financeira do DF e que seria necessário rever contratos e prioridades.

Em 15 de abril, durante reunião com deputados distritais de oposição, Celina disse que precisaria fazer um novo corte de gastos. Segundo ela, as medidas atingiriam contratos, aluguéis e a frota de veículos do governo, mas ainda não havia detalhamento sobre a aplicação dos cortes.

Em 24 de abril, a governadora assinou um decreto de contenção de despesas que determinou a revisão de contratos, com tentativa de redução de até 25% dos valores, além de restrições a reajustes e nomeações.

A medida também criou um comitê para controlar os gastos e preservou serviços essenciais, como saúde, segurança e assistência social. Os órgãos receberam prazo de 60 dias para revisar os contratos. Quando a redução não fosse possível, deveriam apresentar medidas alternativas de compensação.

Em 20 de maio, ao responder a críticas de Ibaneis Rocha, Celina afirmou ter recebido o governo com uma “grave crise no BRB” e um “rombo bilionário nas contas públicas”. Na ocasião, ela não apresentou o valor exato do suposto rombo e disse apenas que tomava decisões que poderiam desagradar a grupos políticos e administrativos para enfrentar os problemas.

Em 27 de maio, durante audiência na Comissão de Economia, Orçamento e Finanças da Câmara Legislativa do Distrito Federal, o secretário de Economia, Valdivino José de Oliveira, informou que o DF havia arrecadado R$ 13,4 bilhões entre janeiro e abril, enquanto as despesas empenhadas somaram R$ 15,3 bilhões.

O resultado orçamentário do período foi um déficit de R$ 1,9 bilhão, e os gastos empenhados cresceram 8,19% em comparação com o mesmo período de 2025. Segundo o secretário, o déficit correspondia a dívidas já contabilizadas referentes aos anos de 2023, 2024 e 2025.

Apesar do déficit no primeiro quadrimestre, Valdivino projetou que o DF encerraria 2026 com superávit de R$ 2 bilhões.

Em 16 de junho, a Secretaria de Economia realizou audiência pública sobre o Projeto de Lei Orçamentária Anual (PLOA) de 2027. Nos meses seguintes, a pasta publicou etapas para validação de receitas, definição de limites e apresentação das propostas das unidades orçamentárias.

A secretaria também alertou contra a superestimativa de despesas e receitas durante a elaboração do projeto.

Em 7 de agosto, Celina Leão e Valdivino apresentaram o balanço fiscal do primeiro semestre. A governadora declarou que havia assumido o DF com um “rombo de quase R$ 5 bilhões”, pagamentos atrasados e a necessidade de um “choque de gestão”.

O secretário detalhou a composição do desequilíbrio: R$ 1,9 bilhão de déficit já registrado; entre R$ 3,5 bilhões e R$ 4 bilhões em despesas contratadas que, segundo ele, não estavam formalmente previstas no orçamento; aproximadamente R$ 5,4 bilhões de desequilíbrio identificado; e uma referência pública posterior a um cenário próximo de R$ 6 bilhões.

Valdivino citou o transporte público como exemplo. O subsídio anual seria de R$ 2,2 bilhões, mas o orçamento disponível seria de R$ 1,1 bilhão, deixando uma diferença de R$ 1,1 bilhão apenas nessa área.

O secretário também afirmou que saúde, educação e limpeza urbana apresentavam despesas programadas acima da previsão orçamentária.

Segundo Valdivino, o modelo anterior dava ampla autonomia a cerca de 60 a 70 unidades orçamentárias. De acordo com ele, decretos e uma portaria assinados pelo governo encerraram essa “liberdade fiscal” e centralizaram a definição das prioridades.

O secretário atribuiu a recuperação anunciada a duas frentes: controle e centralização dos gastos e aumento da arrecadação.

Na ocasião, a projeção oficial de resultado para 2026 passou de um superávit de R$ 2 bilhões, anunciado em maio, para R$ 3 bilhões. Valdivino disse que pretendia buscar um resultado de até R$ 5 bilhões.

Em 16 de setembro, o governo enviou um orçamento sem déficit previsto. Celina protocolou na Câmara Legislativa o Projeto de Lei Orçamentária Anual de 2027, com receitas e despesas estimadas em R$ 49,797 bilhões no orçamento próprio do DF.

O documento foi elaborado sob a premissa de não trabalhar com uma meta de déficit. A orientação da Secretaria de Economia foi fixar despesas compatíveis com as receitas efetivamente estimadas e com a capacidade financeira do Distrito Federal.

Por precaução, foram estabelecidos limites de 82% para despesas correntes, 2% para emendas parlamentares da Câmara Legislativa e 1% para a reserva de contingência. O total programado foi de 85%, preservando uma margem fiscal.

O projeto reservou R$ 9,30 bilhões para educação, R$ 8,01 bilhões para saúde, R$ 2,81 bilhões para urbanismo, R$ 2,48 bilhões para transporte, R$ 1,82 bilhão para segurança e R$ 1,26 bilhão para assistência social.

Além do orçamento próprio, a Secretaria de Economia estimou R$ 30,32 bilhões do Fundo Constitucional do Distrito Federal. Com isso, o conjunto de recursos previsto para 2027 chegaria a cerca de R$ 80,12 bilhões.

Em setembro, Celina também afirmou que uma eventual mudança no cálculo do Fundo Constitucional poderia retirar R$ 1,8 bilhão do orçamento do DF em 2027.

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