PF diz que dono do Banco Master ofereceu imóveis de R$ 146,5 milhões a ex-presidente do BRB

PF investiga suposta oferta de imóveis de luxo a ex-presidente do BRB por dono do Banco Master e aponta interferência política de Ibaneis nas negociações entre os bancos.

PF diz que dono do Banco Master ofereceu imóveis de R$ 146,5 milhões a ex-presidente do BRB

O ex-presidente do Banco de Brasília (BRB) Paulo Henrique Costa afirmou, em depoimento à Polícia Federal, que Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, se ofereceu para comprar apartamentos que ele havia escolhido para morar em São Paulo.

Segundo a investigação, foi montada uma estrutura para destinar ao uso de Paulo Henrique e de familiares seis imóveis de alto padrão, avaliados em R$ 146,5 milhões. Dois empreendimentos ficam em Brasília e quatro, na capital paulista.

Na quarta-feira (28), a Polícia Federal indiciou Daniel Vorcaro, Paulo Henrique Costa e outras 13 pessoas no inquérito principal do caso Master.

À PF, Paulo Henrique disse que recebeu um convite para presidir uma nova instituição financeira, que seria criada a partir das negociações envolvendo o BRB e o Banco Master. A proposta previa que ele deixasse o cargo no BRB e passasse a trabalhar em São Paulo.

De acordo com o depoimento, foi nesse contexto que ele começou a procurar imóveis para morar na capital paulista. Paulo Henrique afirmou que enviou a Vorcaro uma lista dos apartamentos de que havia gostado.

Segundo o ex-presidente do BRB, Vorcaro perguntou: “Mas por que você não fica com todos?”. Em seguida, teria feito a seguinte oferta: “Eu compro todos, já que você gostou. Você vai ser presidente aqui do banco. Você vai ganhar dinheiro um dia”.

Paulo Henrique Costa nega ter recebido os imóveis. No depoimento, afirmou que cinco das seis aquisições não foram concluídas e que a unidade restante foi vendida a uma terceira pessoa.

O relatório da Polícia Federal, no entanto, apresenta uma versão diferente. Segundo os investigadores, os elementos reunidos indicam que a aquisição dos imóveis teria sido uma forma de oferecer vantagem indevida ao então presidente do BRB, em troca de supostamente facilitar os negócios entre os dois bancos.

De acordo com as investigações, cerca de R$ 74 milhões foram efetivamente pagos. O pagamento integral dos valores acordados entre Daniel Vorcaro e Paulo Henrique não teria sido concluído porque o banqueiro soube da instauração de um procedimento investigatório sigiloso para apurar justamente o pagamento de propina ao ex-presidente do BRB por meio da aquisição e do repasse de imóveis.

Conversas analisadas pelos investigadores indicariam que Vorcaro acompanhava a escolha das unidades, autorizava pagamentos e cobrava o andamento da estrutura criada para disponibilizar os bens a Paulo Henrique.

A Polícia Federal também cita mensagens de Paulo Henrique sobre um “cronograma pessoal” ajustado com Vorcaro. O planejamento incluiria “acertar inclusive o contrato e a moradia em SP”, além de verificar se os imóveis continuavam “dentro do que tinham combinado”.

Paulo Henrique Costa também afirmou que o então governador do Distrito Federal, Ibaneis Rocha (MDB), pediu que ele estruturasse uma operação de venda do BRB ao Banco Master, de Daniel Vorcaro.

Segundo o ex-presidente do BRB, o pedido foi feito durante um jantar na casa de Vorcaro, em 24 de setembro de 2024. Ele disse que foi convocado para o encontro pelo gabinete do governador e que tentou evitar a reunião porque estava viajando.

De acordo com Paulo Henrique, durante o encontro Ibaneis disse: “Paulo, estrutura uma venda do BRB para o Master”.

Em determinado momento das negociações, a operação foi invertida: os executivos passaram a discutir uma tentativa de compra do Banco Master pelo BRB. O negócio foi anunciado e chegou a receber aval da Câmara Legislativa do Distrito Federal, mas acabou barrado pelo Banco Central dias antes da liquidação do Banco Master e da deflagração da operação Compliance Zero.

O relato acrescenta detalhes à cronologia das negociações entre o BRB e o Master. Relatórios recentes da Polícia Federal apontam que a articulação para a operação já vinha sendo preparada em 2024 e que, em janeiro de 2025, Ibaneis participou de uma reunião com Paulo Henrique e Vorcaro em Zurique, na Suíça.

Em um dos relatórios, a Polícia Federal afirma que “o Banco Master passou a integrar, de forma indireta, a estrutura acionária do BRB”. Segundo o documento, isso ocorreu “mediante utilização de fundos de investimento (notadamente Borneo, Verbier e Delta), estruturados com o propósito de ocultar o beneficiário final e evitar a caracterização formal de controle ou participação qualificada”.

Sobre a participação de Ibaneis, a PF concluiu que decisões estratégicas da relação entre BRB e Master eram submetidas à apreciação do então governador “antes mesmo de deliberação pelos órgãos formais de governança, evidenciando centralização decisória e interferência política direta na condução da instituição financeira pública”.

“Tal atuação é indicativa de captura institucional, na medida em que a estrutura de decisão do banco foi alinhada a interesses específicos, em detrimento dos princípios de impessoalidade, moralidade e interesse público”, concluiu a Polícia Federal.

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