Mudanças climáticas desafiam mobilidade urbana no DF, dizem especialistas

Com temperatura no DF até 6 °C maior em 2070, especialistas defendem transporte público, integração modal, cidades compactas e infraestrutura verde para enfrentar a crise climática.

Mudanças climáticas desafiam mobilidade urbana no DF, dizem especialistas

As projeções sobre os efeitos das mudanças climáticas não são animadoras. Em 60 anos, a temperatura média no Distrito Federal aumentou 1,85 °C. Para 2070, a previsão é de uma elevação de 6 °C.

Os dados são do Laboratório de Sustentabilidade Aplicada à Arquitetura e ao Urbanismo (LaSUS), da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de Brasília (FAU/UnB).

“A gente tem que considerar que a mobilidade urbana entra em uma nova fase. Não é mais um problema de transporte, é também um problema climático. Esses eventos extremos expõem as fragilidades antigas que nós já tínhamos e criam novos desafios”, afirma o professor de engenharia do UniCeub Rideci Farias.

Na última de uma série de três reportagens, o g1 mostra o que especialistas esperam para o futuro da mobilidade urbana e quais desafios a população do Distrito Federal ainda pode enfrentar quando o assunto é deslocamento.

Leia também: como o planejamento de Brasília impacta a mobilidade urbana em meio à crise climática; e como moradores do DF enfrentam prejuízos e insegurança diante de eventos climáticos extremos.

O gerente de projetos do Instituto de Políticas de Transporte e Desenvolvimento (ITDP), Iuri Moura, destaca que a infraestrutura de transporte precisa ser planejada para responder aos desafios provocados pelas mudanças climáticas.

“Eventos que deveriam ocorrer a cada 100 anos têm ocorrido de forma mais frequente. Isso era um fator que não estava presente de forma tão significativa no planejamento dessas infraestruturas 30, 40 anos atrás”, afirma Moura.

Para os especialistas, a solução passa por mudanças em diferentes áreas, como o investimento em transporte público, a integração entre os modais, o replanejamento do desenvolvimento urbano e a adoção de soluções baseadas na natureza.

“Especialmente a partir da segunda metade do século 20, a gente vê uma intensificação da priorização do transporte individual como meio de transporte. Esse é um dos principais fatores que contribuíram para a crise de mobilidade. A gente precisa inverter essa lógica”, afirma Iuri Moura.

Segundo o especialista, é necessário investir em um serviço de qualidade não apenas para quem já utiliza o transporte público, mas também para atrair novos usuários.

Outra medida apontada é a integração modal, que consiste em utilizar diferentes meios de transporte ao longo de uma mesma viagem. “A bicicleta é um modo muito eficiente para integrar os bairros aos sistemas de transporte de forma bastante ágil, limpa e saudável”, destaca Moura.

O especialista também defende que seja repensado o espraiamento urbano — a expansão horizontal e desconcentrada das cidades. Esse modelo aumenta a dependência do transporte individual motorizado, prolonga os deslocamentos e amplia a exposição da população a eventos climáticos extremos.

“É preciso promover um desenvolvimento mais compacto, intensificando a ocupação em áreas já urbanizadas, onde já exista infraestrutura urbana”, afirma.

Moura também destaca a importância da combinação de atividades nos bairros, para que as pessoas possam realizar tarefas cotidianas por meio de deslocamentos mais curtos.

A professora de arquitetura da UnB Liza Andrade afirma que é necessário buscar na natureza soluções para os desafios provocados pelos efeitos climáticos. Ruas mais arborizadas, jardins e corredores ecológicos são alguns dos recursos possíveis.

“Vai criando o que a gente chama de um sistema todo integrado, em que a infraestrutura verde favorece a infiltração de água e não deixa a água ir para os córregos nem faz as ruas extravasarem. Mas é preciso mudar o desenho das vias”, explica a especialista.

A Secretaria de Mobilidade (Semob) afirmou ao g1, em nota, que o governo está priorizando o transporte público, mas enfrenta o desafio de atrair novos usuários.

“A gente precisa de um transporte público de qualidade, vias expressas, infraestrutura urbana que priorize de fato o transporte coletivo, áreas de estacionamento adequadas, linhas de ônibus e modais de média e alta capacidade, como trens urbanos, VLT e linhas de metrô, para que se tenha acesso a toda a cidade, aos locais de trabalho e estudo, sem precisar de um veículo particular. É exatamente isso que nós estamos incorporando, tanto no Plano Diretor de Transporte e Mobilidade como no PDOT”, declarou a secretaria.

Já a Secretaria de Desenvolvimento Urbano e Habitação afirma que o Distrito Federal prioriza “o modelo de cidade compacta e policêntrica, buscando aproximar moradia, emprego, comércio, serviços e equipamentos públicos”.

“A diretriz é priorizar o crescimento urbano em áreas já urbanizadas ou dotadas de infraestrutura, especialmente ao longo dos eixos de transporte coletivo e nas centralidades urbanas, reduzindo a necessidade de expansão dispersa da cidade e contribuindo para a diminuição dos deslocamentos diários de longa distância”, informou a pasta.

Leia mais notícias sobre a região no g1 DF.

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