Chuvas intensas expõem falhas na mobilidade e drenagem do DF
Chuvas intensas expõem falhas na mobilidade e drenagem do DF, deixando veículos e pedestres em risco. Moradores relatam acidentes, enquanto especialistas cobram planejamento e governo defende obras.
É cada vez mais comum encontrar ônibus, carros e motos — e, em alguns casos, pedestres — presos em enchentes em diferentes regiões do Distrito Federal. As consequências vão além dos danos materiais e também aumentam a insegurança da população.
Na segunda reportagem de uma série de três, o g1 mostra o que os moradores da capital enfrentam para se deslocar durante eventos climáticos adversos e quais medidas o Governo do Distrito Federal (GDF) afirma adotar nessas situações.
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Frequência de chuvas intensas aumenta no DF ao longo dos anos.
“Pensei que ia morrer”
Estragos em moto após acidente em chuva forte no DF — Foto: Arquivo pessoal.
A média de chuva no Distrito Federal vem crescendo ano a ano, segundo dados do Sistema de Monitoramento de Chuvas Urbanas do DF (Simcurb), elaborado pela Agência Reguladora de Águas, Energia e Saneamento Básico do Distrito Federal (Adasa), pelo Instituto Brasília Ambiental (Ibram), pela Universidade de Brasília (UnB) e pela Companhia de Saneamento Ambiental do Distrito Federal (Caesb).
Em 2023, o volume anual de chuvas registrado foi de 981 milímetros. Em 2025, o índice subiu para 1.191 milímetros, um aumento de 21% em dois anos.
Além do aumento no volume total, também cresceu a frequência de chuvas intensas, que provocam diversos estragos em um curto período.
Kiteria Karoline Alves foi uma das vítimas de eventos climáticos recentes. Em março, a moto que ela pilotava foi arrastada pela água durante uma chuva forte em Taguatinga.
“A chuva começou de repente. Era muita água, e as poças eram enormes. Pensei que precisava procurar um lugar para me proteger. Entre o pensamento e a atitude, passou um minuto, e foi tudo de uma vez”, conta.
Kiteria diz que foi arrastada pela água junto com a moto até bater em um muro. Pessoas que passavam pelo local tentaram ajudá-la, mas não conseguiram.
“Pensei que ia morrer. Teve um momento em que um carro quase me atropelou. Quando o motorista me viu — eu estava sendo arrastada —, desviou de mim. Bebi muita água da chuva e do esgoto naquele dia”, lembra.
Estragos em moto após acidente em chuva forte no DF — Foto: Arquivo pessoal.
Ela conta que machucou o pé no acidente e ainda sente dores. Como não conseguiu fazer exercícios físicos, engordou 8 quilos desde o ocorrido. O trauma também fez com que ela só voltasse a subir em uma moto seis meses depois do acidente.
Sobre o futuro, Kiteria diz não ter esperança de melhora. “Esse é um problema antigo, não é a primeira vez. Não sinto compromisso dos nossos governantes”, afirma.
Temporal provoca alagamentos, queda de árvores e de muros pelo DF.
A infraestrutura é eficaz?
Para o professor de engenharia do UniCeub Rideci Farias, os eventos extremos expõem a fragilidade do sistema de mobilidade urbana e criam novos desafios.
“Se pensarmos em todo esse conjunto, certamente a tendência é que o sistema fique mais caro, mais lento e mais desigual. É preciso buscar um planejamento adequado. Essa é uma oportunidade de transformar as capitais”, explica o especialista.
A professora da Universidade de Brasília (UnB) e doutora em arquitetura Liza Andrade afirma que a infraestrutura existente no Distrito Federal, principalmente no que diz respeito à drenagem, ainda é insuficiente.
“As bocas de lobo levam tudo para o corpo d’água mais próximo, carregando toda essa sujeira. Esse é um problema. A vazão não dá conta. Antes, não havia picos de chuva tão fortes como os de agora. Portanto, o que foi pensado e planejado não é suficiente”, explica.
O Governo do Distrito Federal contesta esse diagnóstico.
Em nota, o Departamento de Estradas de Rodagem do Distrito Federal (DER-DF) afirma que as vias urbanas da capital são monitoradas em tempo real pelo Centro de Controle Operacional do órgão. Segundo o departamento, apesar de algumas vias registrarem pontos de alagamento, a situação “se normaliza com o passar do tempo”.
“Com isso, o sistema de drenagem das rodovias distritais, que estão sob a circunscrição deste departamento, está funcionando perfeitamente”, completou o DER-DF em nota ao g1.
A Secretaria de Obras também afirmou que, nos últimos anos, o governo fez investimentos “significativos” em obras de infraestrutura urbana. De acordo com a pasta, “os principais problemas causados pelas chuvas ocorrem, em sua maioria, em áreas de ocupação irregular e desordenada, que não contam com infraestrutura urbana adequada”.
“Todas as obras de mobilidade executadas pela Secretaria de Obras foram concebidas já com reforço no sistema de drenagem, garantindo maior eficiência no escoamento das águas pluviais”, destacou a secretaria.
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