DF cumpre só 3 de 15 pilares para enfrentar alterações climáticas

O DF cumpriu apenas três de 15 pilares climáticos. Falta de orçamento, mapeamento de vulneráveis e áreas verdes agrava riscos de alagamentos, incêndios, calor extremo e dengue.

DF cumpre só 3 de 15 pilares para enfrentar alterações climáticas

☀️⛈️🍃 Temperaturas mais elevadas, menos chuva, períodos de seca mais prolongados e tempestades fora do padrão. As alterações climáticas têm-se intensificado nos últimos anos em todo o país, mas poucas capitais estão preparadas para os efeitos do aquecimento global.

Segundo o Painel Clima Brasil, do Tribunal de Contas da União (TCU), o Distrito Federal cumpriu apenas três dos 15 pilares definidos para enfrentar as alterações climáticas.

O estudo apresenta um diagnóstico sobre a preparação dos estados e do Distrito Federal para fazer face a fenómenos climáticos extremos. O DF ficou abaixo dos estados em, pelo menos, um terço dos pilares considerados essenciais.

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As consequências vão muito além do aumento da temperatura. Saiba quais são os impactos que a população do Distrito Federal poderá sentir nas próximas décadas.

Justiça climática

O coordenador do Laboratório de Climatologia Geográfica da Universidade de Brasília (UnB), Rafael Rodrigues Franca, afirma que as alterações climáticas serão mais evidentes nas regiões mais afastadas da zona central.

O fenómeno é observado em várias metrópoles de todo o mundo, mas exige uma atuação conjunta da sociedade e do poder público para reduzir as desigualdades.

“Quem está no Plano Piloto vai enfrentar muito menos desafios do que quem está lá em Ceilândia, em Taguatinga, no Sol Nascente ou em Samambaia. São regiões administrativas que não foram pensadas e onde não foram criadas áreas verdes”, explica Rafael Franca.

No caso do DF, o Painel Clima Brasil atribuiu uma das classificações mais baixas ao indicador de justiça climática, que avalia a atenção dos governos às políticas ambientais destinadas às populações mais vulneráveis.

Tal como 40% das capitais, o Distrito Federal não tem um mapeamento das populações mais afetadas pelas alterações climáticas.

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Alagamentos

A “injustiça climática” apontada pelo indicador manifesta-se, por exemplo, no índice de alagamentos.

Sem áreas verdes, como árvores e relvados, e sem redes de drenagem estruturadas, as regiões com menor poder económico estão menos preparadas para os temporais intensos — que tendem a tornar-se mais agressivos e frequentes com a crise climática.

Para recordar: Inundações isolam vias e atingem comércio em Ceilândia e São Sebastião após chuva forte no DF.

Além de ajudarem a absorver a água da chuva, as árvores reduzem a concentração de poluentes e a temperatura das zonas urbanas, devido ao fenómeno conhecido como “ilhas de calor”.

Entenda: a ilha de calor é um fenómeno climático urbano em que as cidades registam temperaturas mais elevadas do que as zonas rurais circundantes, devido à presença de asfalto e betão.

Incêndios florestais

As alterações climáticas, além de modificarem o regime de chuvas, prolongam os períodos de seca e aumentam o risco de incêndios florestais.

Até julho deste ano, o Distrito Federal registou 2.707 ocorrências de incêndio, segundo dados do Corpo de Bombeiros Militar do Distrito Federal (CBMDF).

Esta combinação de fatores tem efeitos diretos na saúde da população. Rafael Franca explica que os fenómenos extremos:

• favorecem o aumento da poluição atmosférica provocada pelos incêndios;

• elevam o risco de doenças associadas às chuvas, como a leptospirose;

• agravam problemas relacionados com o calor intenso, como a hipertermia e a desidratação.

O investigador destaca também os efeitos na propagação da dengue.

“Se temos temperaturas mais elevadas, aceleramos também a reprodução do mosquito vetor. O mosquito desenvolve-se mais rapidamente, o ciclo de reprodução fica muito mais acelerado e isso, sem dúvida, afeta a transmissão destas doenças e provoca um maior número de casos. É este o cenário das alterações climáticas globais. E é nas zonas urbanas que a dengue tem o seu principal foco”, alerta Rafael.

Para recordar: Casos de dengue aumentam quase 600% no DF; foram registadas 440 mortes em 2024.

Dados do Painel de Informações e Transparência da Saúde do DF (InfoSaúde-DF) mostram que, até 27 de agosto, as maiores taxas de incidência da doença, por região administrativa de residência, estavam concentradas fora do Plano Piloto.

Os valores mais elevados foram registados no Varjão, em Sol Nascente/Pôr do Sol e em Santa Maria.

Governança climática no DF

O relatório do Painel Clima Brasil foi elaborado em parceria com o Tribunal de Contas do Distrito Federal (TCDF), que auditou a governação, as políticas públicas e o financiamento das medidas destinadas a enfrentar as alterações climáticas.

O auditor do tribunal, Dashiell Velasque da Costa, afirma que os eixos analisados são fundamentais para que as medidas sejam efetivamente implementadas.

“Os pilares são a prioridade, justamente porque representam o passo necessário para começar a dar os passos seguintes”, explica.

Segundo o painel, o Distrito Federal tem uma legislação avançada na área climática e inclui no planeamento governamental medidas para mitigar os efeitos do aquecimento global.

Falta, no entanto, orçamento para implementar essas medidas.

“O DF elencou, como uma das suas preocupações ao estabelecer o planeamento quadrienal, o combate às causas e aos efeitos das alterações climáticas no DF [...]. Quando se analisam as LOA de 2024 e 2025, não foi encontrada expressamente nenhuma ação orçamental especificamente relacionada com a política de alterações climáticas, o que foi confirmado pela equipa técnica da Sema em entrevista”, destaca o relatório.

De acordo com Dashiell, o financiamento é atualmente uma das maiores fragilidades das políticas climáticas no país.

“A componente do financiamento precisa de mais atenção. Dos três eixos, é aquela que está mais atrasada, sobretudo no que diz respeito ao orçamento”, afirma.

Outro ponto destacado pela auditoria é o mapeamento dos riscos climáticos, uma ferramenta utilizada para identificar as zonas mais vulneráveis a fenómenos extremos, como inundações e incêndios.

Sobre o diagnóstico atual do Distrito Federal, o relatório conclui que é “genérico e não relaciona medidas específicas com cada risco identificado, sem prazos, responsáveis, recursos ou indicadores, o que limita a eficácia da gestão [...]”.

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